48 LITERATURA – AS NARRATIVAS PERVERSAS DE JUN ICHIRO TANIZAKI

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Em A gata, um homem e duas mulheres seguido de O cortador de juncos (Estação Liberdade, 2017), Jun’ichiro Tanizaki reúne duas novelas em que a trama principal é formada por triângulos amorosos. A primeira narrativa, além de duas mulheres e um homem, traz como protagonista uma gata, compondo um drama que evolui para a comédia. A segunda evoca passagens do teatro nô, oscilando entre tons melancólicos e sublimes. As duas narrativas dão conta do repertório do escritor japonês, agudo observador da essência da natureza humana e conhecedor da cultura clássica.

Gatos são personagens comuns na literatura japonesa contemporânea. É só lembrar do romance Eu sou um gato (Estação Liberdade, 2008), de Natsume Soseki, no qual um gato narra a vida monótona e relações sociais hipócritas de seu dono, um professor. Ou Kafka à beira mar (Alfaguara, 2002), de Haruki Murakami, em que um gato falante insere elementos fantásticos no cotidiano de um velho com problemas mentais. Lily, a gata de Tanizaki, é motivo de discórdia entre as mulheres do pacato comerciante Shozo. Ao se desenrolar a trama, percebe-se que o felino é um joguete nas mãos das mulheres manipuladoras.

O “homem” da novela compõe o elenco de heróis típicos do autor, balofos e fracos. Shozo é herdeiro de uma pequena loja e sua única paixão na vida é a gata. Casa-se com Shinako, e esta, vendo que o marido não consegue mantê-los, resolve costurar. A situação remediada do casal é suficiente para estimular Orin, mãe de Shozo, a tramar a separação. Por conta de desavenças com Shinako, ela se refugia na casa do irmão. E o filho é obrigado a buscá-la. Aí, aproxima-se da prima Fukuko e tal intimidade desperta a ambição de Orin. Fukuko tem um dote precioso. Shozo abandona a costureira, mas leva a gata Lily. A ex-esposa enxerga na paixão de Shozo uma possibilidade de reaver o marido e inicia a conspiração.

Publicada em 1936, Uma gata, um homem e duas mulheres segue a linha de investigação da essência da natureza humana, na qual se destacam os temas do erotismo, a possessão, a perversidade.

A novela começa com uma carta de Shinako, implorando a devolução da gata. Usando as palavras com astúcia, faz ver o apego de Shozo por Lily, o que desperta o ciúme de Fukuko. Esta, ao comprovar a paixão desmesurada do marido, resolve entregar a gata à costureira. Shinako acaba se apegando ao animal, que se torna o símbolo das carências do meio em que vive.

Publicada em 1936, Uma gata, um homem e duas mulheres segue a linha de investigação da essência natureza humana, na qual se destacam os temas do  erotismo, a possessão, a perversidade.

O tom de comédia está presente em passagens como esta: “sempre que ia para a cama, Shozo tinha que estender um braço como almofada e depois tentar dormir numa posição estudada e mexer-se o mínimo possível. Assim deitado, usava a outra mão para afagar a zona do pescoço, que é onde os gatos mais gostam de festinhas; e Lily respondia imediatamente ronronando de satisfação. Até podia começar a morder-lhe o dedo, ou deitar-lhe gentilmente as garras, ou babar-se um pouco: tudo sinais de que estava excitada”.

‘O cortador de juncos’

O cortador de juncos evoca narrativas do teatro nô, ao se encontrar no meio do rio Yodo, em Okamoto. O narrador encontra um segundo personagem, que conta a história de sua família. Seu pai, Serihashi, apaixonou-se na juventude por uma jovem de beleza excepcional, Oyu. Embora de origem burguesa, é tratada como se fosse nobre. A jovem é mantida pela família do marido falecido, de quem teve um filho. Para manter os seus privilégios, Oyu não pode se casar. Para ficar junto de sua amada, Serihashi casa com uma de suas irmãs, Oshizu, que, por sua vez, casa-se apenas para ser leal a Oyu e não pretende consumar a união. Com o tempo, aumentam as fofocas sobre a paixão de Serihashi pela cunhada. O desfecho do triângulo amoroso é trágico.

Jun’ichiro Tanizaki nasceu em Tóquio, em 1886; morreu em 1965. Estudou literatura japonesa na Universidade Imperial de Tóquio. Na juventude, admirava autores ocidentais, tendo vivido por curto período em uma casa de estilo ocidental em Yokohama, subúrbio de Tóquio e lar de estrangeiros expatriados. Lá levou um estilo de vida boêmio. Em 1923, um terremoto destruiu sua casa, forçando Tanizaki a se mudar para Ashiya, na região de Kyoto e Osaka, fornecendo cenários ao seu romance As irmãs Makioka.

Entre suas principais obras publicadas no Brasil estão Amor insensato (1924; Companhia das Letras, 2004), Voragem (1928; idem, 2001), Há quem prefira urtigas (1930; idem, 2003), A chave (1956; idem, 2000) e Diário de um velho louco (Estação Liberdade, 2002). É ainda autor do ensaio Elogio da Sombra. Tanizaki também traduziu para o japonês autores ocidentais, como Stendhal e Oscar Wilde.

sonho de artista

não sei porque  fecho
tantas portas
mas fico horas
fechando as portas
e os trincos
(josé leonilson)

vivo pelos olhos
de outros
espiando
por frestras
este mundo louco
ninguém vê
o coração apodrece
( só entendo
o caos )
que tal
abandonar
o tratamento ?

(viajar
é transpor
fronteiras,
não
espaciais:
abandonar-se
em temporais,
ficar num lugar
é viajar,
no escuro
mais escuro)

se você quer
curar
o incurável
procure
o doutor
para quem
as histórias
giram nas órbitas

Na orla

Duas mulheres negras me interpelam: “A orla fica por aqui?” Fico confusa ao ouvir a palavra “orla” e digo sim. Quando me recomponho mentalmente, penso que querem saber onde fica a beira do mar.  Vejo que indiquei a direção oposta e corrijo: “Não, é por ali!” Elas descem a rua, contentes. Vendo a alegria delas, decido que sentir o vento do mar bater no rosto será uma delícia. E as sigo com o cachorrinho, cuidando para que não me vejam.
Na orla as perco de vista, quero ir ver os barcos. Lembro que tenho que saber o horário de um barco que parte para Superagui. Volto atrás e flagro as mulheres em frente ao trapiche conversando com um homem bem-apessoado. Constato que não há mais barco indo para Superagui àquela hora.
Sigo na direção da orla, deixando as mulheres para trás. Penso que talvez pudesse passear de bateira e vou até a prainha, onde ficam estacionadas. Na prainha, há uma muvuca. Vários caiaques por ali. Vejo um rosto conhecido. Cumprimento, e ele informa que é uma saída de caiaque para ver a lua cheia. Desisto do passeio de bateira.
Subo o trapiche com o cachorrinho. Há bancos de madeira. Uma mulher está sentada no chão. Diz: “Agora ele tem outra passeadora”, apontando para o cachorrinho. Conta que tem um pincher e uma schnauzer. Conversamos sobre o trabalho que ela tem na cidade. Alguns minutos depois, ela resolve ir pra casa buscar o celular. Quer fotografar os caiaques. Vou embora do trapcihe.
Na volta, vejo um homem com traços orientais na rua. Dois ciclistas passam em alta velocidade. Um deles grita: “Xing ling!” Penso quantas vezes o  grito se repetirá em pequenas cidades de interiores de todos os países do mundo. E por quanto tempo.
Antes de chegar em casa, paro na lanchonete árabe que abre às 6 da tarde. Ele reclama do cachorrinho. Pergunto se faz mal entrar com ele. “Cachorro e comida …”, resmunga. Resolvo que vou levar umas esfihas. Faço o pedido. Depois ele volta, e lembra que uma senhora passeava com um cachorrinho que ficava quietinho na cadeira, sem fazer nada. Não sabe que fala de minha mãe. Recebo as esfihas e vou embora.