Adivinha quem veio para o jantar

A imagem pode conter: plantaPrimeiro veio uma esperança. Pousou na mesa de jantar. Foram as gatas que a apontaram, num canto de parede. Encurralada, ela saltou até atingir a mesa de jantar.
Dias depois, ao tentar voltar para casa num caminho desconhecido encontrei um gafanhoto. Vaciliante pela rua nova, avistei um pequeno santuário no nicho de uma casa que mostrava estátuas de Nossa Senhora e outros santos. Olhei para a casa: havia uma mesa com  gatos deitados sobre ela. A seguir, olhando para o chão vi o gafanhoto.
Eu ia para casa, não ia fotografá-lo. Me deu um ímpeto e fotografei.
Pesquisei na internet. Soube que gafanhotos são insetos que dão sorte. Por que em seu significado simbólico, ajudam a saltar obstáculos.
Há pouco, enquanto escrevia, ouvi um barulho na janela. Fui investigar e encontrei  uma mariposa enroscada na cortina. Tenho medo de mariposas. Quando eu tinha 10 anos, ia tomar aulas de piano, de manhã bem cedo. Avistava mariposas nos postes de iluminação. Eu tinha 10 anos e  elas me amedrontavam.  A rua era deserta. Um dia, um pescador de olhos verdes me abordou. Fugi dele e nunca mais fui para a aula de piano. 

Os insetos me perseguem. Não só os habituais no ambiente doméstico: pulgas,  formigas, aranhas,   mosquitos,  moscas,  baratas, traças.
E vêm os mais selvagens.
Talvez seus predadores estejam sendo exterminados e eles resolvam invadir o território dos semelhantes. Mas pode ser um aviso. Aviso de que em breve a selva chegará.
Borboletas pousarão no varal de roupas. Esquilos subirão nas cortinas. Macacos roubarão bananas da cesta de frutas. Lagartos se enfiarão entre livros da estante.
E virão onças, guaxinins, raposas.
Em breve soltarei urros para saudá-los. Limpidos, atávicos, compassivos.
Os caçadores escutarão e pensarão duas vezes antes de engatilhar as espingardas.

o messias

a felicidade de quem ri
acima do bem e do mal
nada vale
dentes presos
sob a lama

bebe leitinho
mete sandália na picape
e quem veio vê-lo a pé ?

um dia, belo horizonte
no outro, avalanche

a culpa é de quem
não quer ver
não quer ler
não quer ser

a culpa é de quem
se deixa devorar
pela culpa
e não luta
pra não haver
desculpas

a culpa é de quem
não ama a terra
em que nasce
não pisa no chão
onde crescem girassois

a culpa é de estrelas
que beijam pés de patos
de quem tuíta de quatro
e jamais se levanta
do leito esplêndido

“A gorda”, Isabela Figueiredo

Nenhum texto alternativo automático disponível.
“A gorda”, de Isabela Figueiredo (Todavia, 2018), é a história de Maria Luísa, uma moçambicana que, adolescente, vai estudar em Portugal, no ano da independência de seu país. Acima do peso, submete-se a humilhações de uma esbelta colega de classe para conquistar sua amizade e suporta ofensas como “baleia”, “orca”, “monstro” de outros colegas. Seus algozes são um coro anônimo, que mais tarde, sob outras máscaras, reproduzirão o bullying, influenciando o único namorado, David. Ele acaba rejeitando Luísa por um par mais de acordo com os padrões de beleza femininos vigentes. Depois de uma vida inteira solitária e da morte da mãe, Luísa se sujeita a uma operação de gastrectomia.
A autora, com sensibilidade, descreve com minúcia o drama das mulheres fora do padrão de corpos femininos considerados desejáveis pela sociedade patriarcal. A casa em que a protagonista morou com os pais é revisitada, cada parte dela dando título a uma fase de sua vida. A correspondência de cada cômodo da casa com uma etapa da vida é uma ênfase de como um aspecto de cunho privado, como o corpo da mulher, pode ser estabelecido pela voz pública que dita o que é adequado ou não através da regulação estética e da determinação da maternidade. .
Luísa não atinge também este outro objetivo do padrão do corpo feminino, a maternidade. Apesar do desejo de ser mãe num relacionamento extraordinário, ela aborta reiteradamente. Sua narrativa fala do fracasso de cumprir as exigências do ser feminino tradicional, ao mesmo tempo em que, em suas margens, sugere o prazer rebelde, não só de alimentar-se como do sexo que pode ser desfrutado quando as mulheres veem-se livres de estereotipos.

no more tears

I

no more tears

o verão de nossa desesperança

bares continuam cheios
jornais estouram sacos de maldades
aqui e acolá balões e pipocas
compramos a água que bebemos
ar inóspito na china

ficar em cima do muro
é para os bem-sucedidos

mais um brinde :
não há justiça
utopias: surtos entre estados em guerra

o heroi descobre em exílio

 

II

não levei flores
quando te levaram

senti o perfume
em cada pétala
colei uma sílaba

deixei as flores como estavam

ficou mais leve
carregar o vazio
nos  braços

 

III

condenada pelo sol
a ficar sob o  jugo

prefere a sombra
sombras,  não trevas

guarda no bolso
a sombrinha de papel

arrependimento?
o sol no labirinto cega

perder-se é achar
a chave da alegria

 

IV

prefere farrapos
à alternativa correta
xadrezinho na estampa
cerejas na xícara
medo de barata universal

anjo de uma asa só
antes só
agora é sol

V

flores, nem morta
só as que não se cheiram

no jardim quioto
é pau é pedra

 

VI

não abra a porta
se tudo que quer
é morder os lábios
não abra a porta
se o que deseja
é estufar o estômago
a voz arroto
olhos grandes demais
orelhas caem
não abra a porta
se tudo que  quer
é calar a boca
de menina
de mulher
tua história
conto de fada

 

VII

sejam feias
as palavras

bonita
é mulher que luta

ergue o rosto
ao catar papel

ocupa ruas e canta
a  chama é o fogo da revolução

VIII

Pra que servem as lágrimas?
Não apagam o incêndio
Bombas jogadas  dia-a-dia
Não há como subir
Em.ombros de gigantes
O coração queima
Um rio em lágrimas
Não é o bastante
Quantos cantos
Vamos perder ?
Se é o fogo purificador
Avancemos
Corações ardentes
Sobre a baía em lágrimas