fim finito

o tempo da tempestade
não é igual ao tempo da cidade
temporal é potestade
que arrasta o sol num pote
e aposta: num segundo
tudo irá pelos ares
mares e malabares
o mundo e os cantares

 

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BICICLETAS CAIÇARAS NA ARTBICIMOB

 

A exposição “Bicicletas Caiçaras” está  aberta na Bicicletaria Cultural (Rua Presidente Faria, 226), até o dia 06 de outubro, dentro da programação do 10o. Artbicimob. A exposição, com 20 poemas de Marilia Kubota e 30 fotos de Lauro Borges, tem como tema bicicletas e ciclistas da cidade de Paranaguá. Há um ano, a exposição foi apresentada na Casa de Cultura Monsenhor Celso, em Paranaguá, como produto de projeto aprovado no edital de incentivo cultural da cidade. 

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um trabalho árduo

subir a montanha. um pé depois do outro. não enfiar a cabeça nas nuvens. calçar botas alpinistas. praticar técnicas de respiração. não ler aventuras no everest ou nos andes. acompanhar a caravana de caramujos. o pé pisou em falso. elevador caindo no poço. não apertar o botão de pânico. o moranguinho entre folhas serrilhadas: colher.

Porque hoje é sábado e amanhã é domingo

Por que as sacolas cheias. Por que copos entornam. Por que rosários entre dedos. Por que a dieta começa segunda. Por que se torra ao sol. Por que água demais nos vasos. Por que nome de gente em cachorro, gato, canário e tartaruga. Por que a camisinha estoura. Por que a cantada é brega. Por que se lavam carros e quintais. Por que a tecla é mais vagarosa que o gênio. Por que a corda se ata.

Porque hoje é sábado e amanhã é domingo.

REMÉDIOS

Vivia atrapalhada. Usava o armário como cama, os tapetes voavam sob seus pés, quebrava a louça quando tirava a toalha da mesa. Uma onda veio do céu, abriu um buraco na terra. A boneca cuspiu o pedaço de pera, engasgado quando criança. E o carrilhão voltou a funcionar.

sonho de artista

não sei porque  fecho
tantas portas
mas fico horas
fechando as portas
e os trincos
(josé leonilson)

vivo pelos olhos de outros
espiando por frestas
este mundo louco
ninguém vê
o coração apodrece
( só entendo o caos )
que tal abandonar o tratamento ?

(viajar é transpor fronteiras
não espaciais:
abandonar-se em temporais,
ficar num lugar é viajar
no escuro mais escuro)

se você quer curar o incurável
procure o doutor
pra quem histórias
giram em  órbitas

Na orla

Duas mulheres negras me interpelam: “A orla fica por aqui?” Fico confusa ao ouvir a palavra “orla” e digo sim. Quando me recomponho mentalmente, penso que querem saber onde fica a beira do mar.  Vejo que indiquei a direção oposta e corrijo: “Não, é por ali!” Elas descem a rua, contentes. Vendo a alegria delas, decido que sentir o vento do mar bater no rosto será uma delícia. E as sigo com o cachorrinho, cuidando para que não me vejam.
Na orla as perco de vista, quero ir ver os barcos. Lembro que tenho que saber o horário de um barco que parte para Superagui. Volto atrás e flagro as mulheres em frente ao trapiche conversando com um homem bem-apessoado. Constato que não há mais barco indo para Superagui àquela hora.
Sigo na direção da orla, deixando as mulheres para trás. Penso que talvez pudesse passear de bateira e vou até a prainha, onde ficam estacionadas. Na prainha, há uma muvuca. Vários caiaques por ali. Vejo um rosto conhecido. Cumprimento, e ele informa que é uma saída de caiaque para ver a lua cheia. Desisto do passeio de bateira.
Subo o trapiche com o cachorrinho. Há bancos de madeira. Uma mulher está sentada no chão. Diz: “Agora ele tem outra passeadora”, apontando para o cachorrinho. Conta que tem um pincher e uma schnauzer. Conversamos sobre o trabalho que ela tem na cidade. Alguns minutos depois, ela resolve ir pra casa buscar o celular. Quer fotografar os caiaques. Vou embora do trapcihe.
Na volta, vejo um homem com traços orientais na rua. Dois ciclistas passam em alta velocidade. Um deles grita: “Xing ling!” Penso quantas vezes o  grito se repetirá em cidades de interiores de todos os países do mundo. E por quanto tempo.
Antes de chegar em casa, paro na lanchonete árabe que abre às 6 da tarde. O dono reclama do cachorrinho. Pergunto se faz mal entrar com ele. “Cachorro e comida …”, resmunga. Resolvo que vou levar umas esfihas. Faço o pedido. Depois ele volta, e lembra que uma senhora passeava com um cachorrinho, que ficava quietinho na cadeira, sem fazer nada. Não sabe que fala de minha mãe. Recebo as esfihas e vou embora.