sonho de artista

não sei porque  fecho
tantas portas
mas fico horas
fechando as portas
e os trincos
(josé leonilson)

vivo pelos olhos
de outros
espiando
por frestras
este mundo louco
ninguém vê
o coração apodrece
( só entendo
o caos )
que tal
abandonar
o tratamento ?

(viajar
é transpor
fronteiras,
não
espaciais:
abandonar-se
em temporais,
ficar num lugar
é viajar,
no escuro
mais escuro)

se você quer
curar
o incurável
procure
o doutor
para quem
as histórias
giram nas órbitas

Na orla

Duas mulheres negras me interpelam: “A orla fica por aqui?” Fico confusa ao ouvir a palavra “orla” e digo sim. Quando me recomponho mentalmente, penso que querem saber onde fica a beira do mar.  Vejo que indiquei a direção oposta e corrijo: “Não, é por ali!” Elas descem a rua, contentes. Vendo a alegria delas, decido que sentir o vento do mar bater no rosto será uma delícia. E as sigo com o cachorrinho, cuidando para que não me vejam.
Na orla as perco de vista, quero ir ver os barcos. Lembro que tenho que saber o horário de um barco que parte para Superagui. Volto atrás e flagro as mulheres em frente ao trapiche conversando com um homem bem-apessoado. Constato que não há mais barco indo para Superagui àquela hora.
Sigo na direção da orla, deixando as mulheres para trás. Penso que talvez pudesse passear de bateira e vou até a prainha, onde ficam estacionadas. Na prainha, há uma muvuca. Vários caiaques por ali. Vejo um rosto conhecido. Cumprimento, e ele informa que é uma saída de caiaque para ver a lua cheia. Desisto do passeio de bateira.
Subo o trapiche com o cachorrinho. Há bancos de madeira. Uma mulher está sentada no chão. Diz: “Agora ele tem outra passeadora”, apontando para o cachorrinho. Conta que tem um pincher e uma schnauzer. Conversamos sobre o trabalho que ela tem na cidade. Alguns minutos depois, ela resolve ir pra casa buscar o celular. Quer fotografar os caiaques. Vou embora do trapcihe.
Na volta, vejo um homem com traços orientais na rua. Dois ciclistas passam em alta velocidade. Um deles grita: “Xing ling!” Penso quantas vezes o  grito se repetirá em pequenas cidades de interiores de todos os países do mundo. E por quanto tempo.
Antes de chegar em casa, paro na lanchonete árabe que abre às 6 da tarde. Ele reclama do cachorrinho. Pergunto se faz mal entrar com ele. “Cachorro e comida …”, resmunga. Resolvo que vou levar umas esfihas. Faço o pedido. Depois ele volta, e lembra que uma senhora passeava com um cachorrinho que ficava quietinho na cadeira, sem fazer nada. Não sabe que fala de minha mãe. Recebo as esfihas e vou embora.